A Câmara dos Deputados divulgou hoje o relatório do Marco Legal da Inteligência Artificial. O texto, que vinha em compasso lento desde a aprovação no Senado em dezembro de 2024, volta a ter prazo. E volta com a mesma pergunta que sempre desorienta os times técnicos: quem, dentro da empresa, precisa olhar para isso agora?

A resposta intuitiva manda olhar para o time de IA. Errado, e errar nisso custa caro. O Marco Legal não classifica modelos; classifica usos. Isso desloca a responsabilidade de governance para um lugar que a maioria das empresas não esperava: o time de produto.

O que o Marco Legal faz, em duas frases

O Marco Legal, em duas frases: o PL 2338/2023 organiza sistemas de IA em categorias de risco — proibidos, de alto risco, e os demais — e impõe obrigações proporcionais à categoria. As obrigações de alto risco incluem avaliação de impacto, supervisão humana qualificada, trilha de auditoria e direito de explicação ao usuário afetado. É a estrutura geral; o relatório da Câmara mexe nas bordas, não no princípio.

E é o princípio que importa para quem está construindo. Alto risco não é uma categoria técnica — é uma categoria de impacto. O mesmo modelo de linguagem, na mesma stack, vira alto ou baixo risco dependendo de onde está plugado.

O mesmo modelo em dois produtos

Um caso recente deixa isso concreto. Em uma fintech B2C de médio porte, algumas centenas de milhares de usuários, o mesmo LLM roda em dois produtos. No app, sugere ao usuário a categoria de uma despesa que ele acabou de registrar: "isso parece transporte; quer aceitar?". No painel interno de análise de crédito, gera um resumo do histórico transacional do cliente para o analista humano que aprova ou recusa o pedido. Mesmo modelo, mesma infraestrutura, dois regimes regulatórios distintos.

O primeiro é baixo risco. O usuário lê a sugestão, aceita ou recusa em três segundos, e poderia ter decidido sozinho com a mesma facilidade. A IA não decide nada que o ser humano à frente da tela não decidiria com ou sem ela.

O segundo é alto risco — mesmo com analista humano carimbando a decisão. A razão é estrutural, e é o ponto que os times técnicos costumam não enxergar: um analista lê dezenas de resumos por plantão. Se o resumo destaca consistentemente os mesmos sinais, o resumo vira a decisão de fato. O humano carimba. O human-in-the-loop, sozinho, não desloca a classificação de risco — porque não é o ato formal de aprovação que o Marco Legal está olhando, é o efeito real do sistema sobre quem recebe um "não" no crédito.

Quem responde pela pergunta dentro da empresa

Quem responde, dentro da empresa, à pergunta "este produto influencia decisões com impacto sobre direitos?" costuma ser o PM que desenhou o fluxo, não o engenheiro que escolheu o modelo. Por isso o risco regulatório passa a morar no roadmap de produto, não no backlog de infra.

As duas tentações que custam caro

Há uma tentação simétrica de cada lado, e as duas custam dinheiro. De um lado, tratar o Marco Legal como "vai resolver depois quando o sistema for crítico" — e descobrir, em produção, que redesenhar logging, trilha de auditoria e supervisão humana qualificada custa muito mais do que projetar para o regime certo desde o início. Do outro, tratar todo produto com LLM como alto risco e gastar orçamento de governance onde não é necessário. A maioria dos produtos com IA não será alto risco. Mas saber em qual lado da linha cada um está exige uma conversa entre produto e jurídico que acontece antes da arquitetura, não depois.

O paralelo com o EU AI Act

A comparação rápida com o EU AI Act ajuda a calibrar a expectativa: a Europa também ancorou risco em uso, não em tecnologia, e o resultado prático é que a maior parte do peso regulatório caiu sobre quem opera o produto — não sobre quem treina o modelo. O Marco Legal brasileiro segue essa lógica.

A pergunta prática não é se a IA do seu produto é regulada. É se o produto que usa a IA tem alto impacto sobre direitos — e quem sabe responder isso é o time de produto, não o time de IA.