Um assistente de IA que só sabe o que leu no treino não enxerga seus arquivos, não vê seu histórico de Git, não lembra da conversa de ontem — cada sessão nova começa do zero. Dá para compensar colando contexto na mão toda vez, mas depois do terceiro dia isso vira mais trabalho que a tarefa em si.
MCP (Model Context Protocol) resolve esse problema: um padrão aberto que a Anthropic publicou em novembro de 2024, conectando o cliente de IA a ferramentas e dados externos por uma interface única. O próprio protocolo é descrito como um "USB-C para IA" — uma porta padronizada no lugar de um cabo proprietário para cada ferramenta. Este texto não explica o protocolo inteiro antes de deixar você usar alguma coisa: instala direto 5 servidores que cobrem a maior parte dos casos comuns — arquivos, Git, memória persistente, GitHub e banco de dados. Eu uso esses cinco no meu dia a dia dentro do Claude Code para trabalho de desenvolvimento real; não é exercício teórico, é a configuração que já roda.
O que você precisa
- Um cliente que fala MCP: Claude Desktop, Claude Code ou Cursor
- Node.js instalado, para servidores que rodam via
npx, e/ou Python comuv/uvx, para servidores que rodam viauvx - No Windows, saber que comandos
npxprecisam ser envolvidos emcmd /c— ver Passo 3 - Para o servidor GitHub, um personal access token do GitHub
- Para o servidor Postgres, uma connection string de um banco local ou de teste — nunca de produção neste tutorial
- Custo: os servidores em si são gratuitos e de código aberto; o único custo indireto é o uso normal da API ou do plano do seu cliente de IA
Passo 1: entenda as 3 capacidades de um servidor MCP
Todo servidor MCP expõe até três capacidades, e os cinco servidores instalados a seguir usam essas três capacidades em proporções diferentes:
- Resources — dado tipo arquivo que a IA pode ler: linha de banco, resposta de API, conteúdo de um arquivo
- Tools — funções que a IA pode chamar, com a sua aprovação: escrever um arquivo, rodar uma query
- Prompts — templates prontos para fluxos que se repetem
Passo 2: configure filesystem, git e memory
A doc oficial lista sete "reference servers", mantidos pela própria equipe do MCP — o nível mais alto de confiança e manutenção que existe hoje. A lista completa (verificada contra modelcontextprotocol.io/examples em 2026-09-11) inclui Everything, Fetch, Filesystem, Git, Memory, Sequential Thinking e Time. Este tutorial configura três deles.
{
"mcpServers": {
"memory": {
"command": "npx",
"args": ["-y", "@modelcontextprotocol/server-memory"]
},
"filesystem": {
"command": "npx",
"args": [
"-y",
"@modelcontextprotocol/server-filesystem",
"/caminho/permitido"
]
},
"git": {
"command": "uvx",
"args": ["mcp-server-git", "--repository", "/caminho/do/repositorio"]
}
}
}
O filesystem só enxerga o caminho que você declarar no array de args — essa é a barreira de segurança do servidor, e só funciona se o caminho for restrito de verdade. O git pode ser instalado via uvx, recomendado, ou via pip.
Passo 3: adapte o comando para o Windows
No Windows, comandos npx puros dentro do JSON não funcionam direto — é preciso envolver com cmd /c:
{
"command": "cmd",
"args": ["/c", "npx", "-y", "@modelcontextprotocol/server-filesystem", "C:\\caminho\\permitido"]
}
Sem esse wrapper, o cliente relata falha ao iniciar o servidor sem uma mensagem de erro clara — é o ponto de atrito mais comum de quem configura MCP pela primeira vez no Windows.
Passo 4: adicione o GitHub
GitHub aparece na doc oficial numa seção separada, "Official integrations" — mantida pela empresa parceira, não pela equipe central do MCP. Na prática funciona igual aos três servidores do Passo 2, mas o ciclo de manutenção depende de outra equipe.
{
"mcpServers": {
"github": {
"command": "npx",
"args": ["-y", "@modelcontextprotocol/server-github"],
"env": {
"GITHUB_PERSONAL_ACCESS_TOKEN": "<SEU_TOKEN>"
}
}
}
}
O token fica no arquivo de config local — trate esse arquivo como segredo e nunca o commite num repositório Git.
Passo 5: adicione o Postgres
postgres-mcp (pacote crystaldba/postgres-mcp) não é mantido pela Anthropic nem por uma empresa parceira listada — é servidor de comunidade. Funciona bem, mas sem o mesmo nível de garantia de manutenção dos quatro servidores anteriores.
{
"mcpServers": {
"postgres": {
"command": "uvx",
"args": ["postgres-mcp", "--access-mode=unrestricted"],
"env": {
"DATABASE_URL": "postgresql://usuario:senha@localhost:5432/nome_do_banco"
}
}
}
}
--access-mode=unrestricted dá leitura e escrita completas. Para uma primeira configuração, vale considerar um modo mais restrito, se o servidor oferecer um.
O que pode dar errado
Esquecer o wrapper cmd /c no Windows derruba o servidor sem mensagem de erro óbvia — é o primeiro lugar para olhar quando um servidor "não sobe" só nesse sistema.
Token do GitHub ou connection string do Postgres commitados junto com o arquivo de config é o erro mais caro da lista. Trate esse arquivo como segredo, igual a um .env.
Chamar os cinco servidores de "todos oficiais" esconde uma diferença que importa: filesystem, git e memory são reference servers da própria equipe do MCP; GitHub é integração de uma empresa parceira; Postgres é comunidade. A diferença decide a quem recorrer se algo quebrar.
Apontar o filesystem para a raiz do disco em vez de um caminho específico anula a barreira de segurança do servidor — ela só existe se o caminho declarado for restrito.
Próximos passos
Depois dos 5 básicos, a pergunta seguinte é quando vale escrever um servidor MCP próprio em vez de usar function calling direto:
| Situação | Caminho |
|---|---|
| 1–2 funções usadas só num app | Function calling |
| Ferramenta compartilhada entre Claude Desktop, Cursor e um agente próprio | Servidor MCP |
| Protótipo ou experimento único | Function calling |
| Infraestrutura compartilhada de time — banco, docs, API interna | Servidor MCP |
| Precisa de descoberta de ferramenta em runtime | Servidor MCP |
| Latência muito exigente, overhead mínimo | Function calling |
Se o objetivo for rodar tudo local, sem depender de API paga, o próximo passo natural é conectar esses mesmos clientes a um modelo rodando na sua máquina.
LEIA TAMBÉM · TutorialInstalar o Ollama é fácil; escolher o modelo do tamanho certo é o que decide se ele voa ou travaRodar um modelo de IA "no seu computador" significa que o texto nunca sai da máquina — nada vai para servidor de terceiro. Isso importa quando o dado é sensível ou quando pagar por cada pergunta a uma API sai caro.MCP não substitui saber o que cada ferramenta faz. Ele só padroniza como a IA pede para usar essas ferramentas.
