Um projeto pessoal cresce até esbarrar num ponto sensível: notas de terapia, dado de cliente sob NDA, um rascunho que não pode vazar antes do lançamento. Nesses casos, mandar o texto para o servidor de um terceiro deixa de ser questão de conveniência.
Claude e GPT resolvem a maior parte do dia a dia, e continuam sendo a escolha certa quando o dado pode circular. O que eles não resolvem é o caso em que o dado não pode sair da máquina, ou o volume é alto demais para pagar por chamada de API. Para esse recorte, a saída é rodar um modelo local: o Ollama sobe o modelo no seu computador, você escolhe o tamanho certo para o hardware disponível, e o Page Assist vira a interface de chat — sem terminal para o dia a dia.
O Research Brain, meu sistema que transforma notas, links e vídeos numa base de conhecimento com busca semântica, roda 100% local com Ollama. Não é experimento de fim de semana; é infraestrutura que uso todo dia.
O que você precisa
- Um computador com pelo menos 8GB de RAM ou VRAM unificada — o mínimo absoluto; a tabela do Passo 2 mostra o que de fato roda bem nesse patamar
- macOS, Linux ou Windows — o Ollama roda nos três
- Espaço em disco: os modelos variam de ~2GB a mais de 40GB, dependendo do tamanho
- Chrome ou Firefox, se for usar o Page Assist como interface
- Custo: o Ollama é gratuito e de código aberto; o único custo é o hardware que você já tem
Passo 1: instale o Ollama
A instalação muda por sistema operacional, mas em todos cabe num comando ou num instalador baixado do site oficial.
# macOS
brew install ollama
# ou baixar o instalador em ollama.com
# Linux (um comando)
curl -fsSL https://ollama.com/install.sh | sh
# Windows
winget install Ollama.Ollama
# ou baixar o instalador em ollama.com
Depois de instalado, o servidor normalmente já sobe sozinho, escutando em localhost:11434. Se não subir, ollama serve inicia na mão. A versão em uso no momento desta verificação é a v0.33.3, lançada em 2 de setembro de 2026 (verificado 2026-09-11) — a versão exata muda com frequência, o comando de instalação não.
Passo 2: escolha o modelo certo para o seu hardware
O tamanho do arquivo de um modelo segue uma regra de bolso: parâmetros em bilhões vezes 0,5GB, mais cerca de 1GB de overhead, na quantização padrão. Um modelo de 8B ocupa perto de 5GB; um de 70B passa dos 40GB. A tabela abaixo mostra o que roda bem em cada faixa de hardware (fonte: jun/2026):
| Hardware | RAM/VRAM | Modelos que rodam bem | Velocidade |
|---|---|---|---|
| MacBook M1/M2 (8GB) | 8GB unificada | Llama 3.2 1B, Phi-3 Mini apenas | Lenta (3–8 tok/s) |
| MacBook M1/M2/M3 (16GB) | 16GB unificada | Llama 3.1 8B, Mistral 7B, Qwen 2.5 7B | 25–35 tok/s |
| MacBook M2/M3 Pro (32–36GB) | 32–36GB unificada | 7B–8B, 14B, alguns 32B | 40–60 tok/s em 7B |
| Mac Studio M3 Max (48–96GB) | 48–96GB unificada | 7B até 70B (Llama 3.3 70B ~46GB) | 50+ tok/s em 7B; 20–30 em 70B |
| RTX 3060 (8GB VRAM) | 8GB VRAM | 7B em Q4_K_M (6,2GB) | 40–50 tok/s |
| RTX 3090/4090 (24GB VRAM) | 24GB VRAM | 7B–32B em Q4_K_M | 60–80 tok/s em 7B |
| Dual RTX 4090 / A100 (48GB+) | 48GB+ VRAM | Llama 3.3 70B (45,6GB Q4_K_M) | Rápida |
Quando o modelo não cabe inteiro na VRAM, o Ollama empurra o que sobra para a RAM comum — e a velocidade cai de 5 a 10 vezes. A lição prática: escolha um modelo que caiba inteiro no seu hardware, não o maior que "quase cabe".
Passo 3: baixe e rode o primeiro modelo
Dois pontos de partida cobrem a maioria dos casos — um generalista, um forte em português:
ollama pull llama3.1:8b-q4_K_M # ~5GB, ponto de partida recomendado
ollama pull qwen2.5:7b # ~5GB, forte em português
ollama run llama3.1:8b
O sufixo q4_K_M é a quantização — a compressão que reduz o tamanho do modelo em troca de uma perda de qualidade quase imperceptível. É o padrão do Ollama por um motivo: reduz o modelo para cerca de 35% do tamanho em precisão total (FP16), mantendo perto de 95% da qualidade. Use Q4_K_M a menos que tenha um motivo específico para outra coisa — o Q8_0 chega a 95% de qualidade custando 1,1x o tamanho do FP16, e o Q3_K_M perde qualidade perceptível, reservado para RAM muito limitada.
Passo 4: configure o Page Assist como interface de chat
Instale a extensão pela Chrome Web Store. Com o Ollama rodando em localhost:11434, o Page Assist detecta automaticamente — zero configuração manual, confirmado na documentação oficial da extensão.
Abra o ícone do Page Assist, selecione o modelo baixado no Passo 3 e comece a conversar. A extensão também aceita upload de PDF para análise e consegue usar o conteúdo da página aberta como contexto — útil para perguntar sobre um artigo sem copiar e colar nada.
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Baixar um modelo maior do que o hardware suporta não dá erro explícito — dá lentidão extrema, 5 a 10 vezes mais devagar, porque o excesso foi parar na RAM em vez da VRAM. Se a resposta demorar demais, o primeiro suspeito é esse.
Achar que precisa da versão "mais forte", em FP16, desperdiça espaço em disco sem ganho perceptível de qualidade — Q4_K_M já entrega perto de 95% da referência.
Esperar que um modelo local de 7-8B raciocine como Claude ou GPT-4o também decepciona: modelos locais desse porte são de 2 a 10 vezes mais fracos em tarefas de raciocínio complexo. Local resolve privacidade, custo e uso offline — não substitui qualidade de ponta.
Se o Page Assist não detectar o Ollama sozinho, o primeiro passo é checar se ollama serve está de fato rodando antes de reportar bug na extensão.
Próximos passos
Depois de conversar com um modelo local, o próximo degrau natural é indexar conhecimento próprio — notas, documentos — em vez de só bater papo. É nesse ponto que RAG se conecta ao Ollama. Se o objetivo for treinar um comportamento específico em vez de usar um modelo pronto, a escolha entre fine-tune, RAG e prompt define o próximo passo.
LEIA TAMBÉM · ExplicaçãoFine-tune tem três perguntas na frente, e a maioria dos casos para na primeiraFine-tune é retreinar parte de uma IA para mudar como ela se comporta. É diferente de escrever um prompt melhor ou buscar informação externa com RAG — a maioria dos problemas se resolve com um dos dois, sem treinar nada.Rodar IA local não é sobre ter o modelo mais forte. É sobre não precisar mandar o dado para lugar nenhum quando isso importa.
