Tradução jurídica tem uma assimetria desconfortável: o prazo aperta e o erro custa caro. Um contrato com o termo trocado não é problema de estilo. É problema que aparece semanas depois, na mesa de outra pessoa, quando já não dá para corrigir de graça.

Com 608 clientes e mais de 12.600 projetos acumulados, fazer isso à mão significa contratar tradutor atrás de tradutor — e mesmo assim o gargalo se desloca para a revisão. Montei o Mt-service para responder a uma pergunta específica: dá para automatizar tradução técnica sem abrir mão do controle de qualidade que o jurídico exige? Ele está em produção contínua desde 2025 e é o projeto de maior longevidade que eu mantenho de pé.

Traduzir mais rápido, sozinho, não resolve nada em documento jurídico

Tradução automática rápida sem QA é risco com outro nome. Você troca o tempo do tradutor pelo tempo de quem vai descobrir o erro depois, e o segundo costuma sair mais caro que o primeiro.

O problema de verdade tinha quatro partes que precisavam caber no mesmo fluxo: traduzir, aplicar a terminologia daquele cliente, revisar editorialmente e passar por QA. Qualquer uma delas feita à mão vira o gargalo do conjunto. Automatizar só a tradução muda o gargalo de lugar e a operação continua do mesmo tamanho.

E tinha uma restrição inegociável: o resultado precisava caber no fluxo de trabalho que o setor já usava. Em localização isso quer dizer SDL Trados, que é o padrão da indústria. Um sistema que exigisse abandonar o Trados não seria adotado, por melhor que rodasse.

Seis passes por documento, e o último é uma pessoa

A porta de entrada é FastAPI. Os endpoints recebem os segmentos de tradução vindos do próprio SDL Trados. O tradutor continua trabalhando na ferramenta dele, e o pipeline entra como mais uma etapa — não como um sistema paralelo que alguém precisa lembrar de abrir.

Dentro, cada documento passa por seis etapas em ordem: extração dos segmentos, injeção da terminologia do setor, tradução via LiteLLM, revisão editorial, QA automatizado e checkpoint humano final. O spaCy faz o trabalho linguístico do processamento e o WeasyPrint gera o relatório no fim. O backend roda em Railway; o frontend administrativo, em Vercel.

Glossários e memórias de tradução ficam indexados por cliente. É a parte que menos parece IA e mais parece burocracia, e é a que separa uma tradução aceitável de uma tradução que o cliente reconhece como dele. Dois clientes do mesmo setor usam palavras diferentes para a mesma coisa, e nenhum dos dois trata isso como detalhe.

Custo, tempo e erros são rastreados por job, e 100% dos jobs saem com relatório. Isso não é enfeite de dashboard: é o que permite responder "o que aconteceu neste documento" sem reabrir o documento e refazer o caminho na mão.

LEIA TAMBÉM · TutorialO pipeline de tradução que separa 'parece traduzido' de 'pronto para entregar'Um prompt só traduz até aparecer um termo que não pode variar ou uma expressão que soa estranha. Este pipeline passa o texto por cinco etapas, cada uma corrigindo um tipo de erro, e no fim gera um relatório do que mudou.

O erro não costuma vir do modelo, vem do glossário parado

Pipeline de tradução multi-passe com terminologia por cliente surpreende em dois pontos, e nenhum deles é o modelo escolher a palavra errada por conta própria.

O primeiro é o glossário desatualizado. O cliente mudou o termo padrão em algum momento, ninguém avisou o pipeline, e o modelo segue o glossário à risca — que é exatamente o que você pediu que ele fizesse. O resultado sai consistente, rastreável e errado. Erro consistente é mais difícil de achar do que erro aleatório. Ele não chama atenção em nenhuma linha específica — chama no documento inteiro, e só quando alguém do cliente lê com calma.

O segundo é o segmento fora de contexto. O Trados manda frases isoladas, e uma frase isolada perde o sentido que o parágrafo inteiro dava. O modelo traduz corretamente o que recebeu, e o documento montado fica com uma linha que não conversa com a anterior. Nenhum dos dois casos aparece como falha no log. Os dois aparecem como tradução plausível, que é a categoria mais cara de erro.

15× mais rápido e 95% mais barato, com duas peças que nunca desligam

Os números que eu tenho são comparativos, não absolutos: o pipeline roda 15× mais rápido e 95% mais barato que o processo anterior. Não publico um custo mensal em reais, e o "antes" também não está fechado em número. O que está fechado é a razão entre os dois, e é ela que decide se o pipeline se paga.

Dentro desse custo, dois passes de QA acontecem antes de qualquer entrega. Não são opcionais nem proporcionais ao tamanho do documento, porque o dia em que alguém decide pular o QA é sempre o dia do documento urgente — e documento urgente é onde o erro mora.

A estrutura de gasto tem duas naturezas. Railway e Vercel ficam ligados o tempo todo, e essa parte é fixa, independente de volume. As chamadas de modelo via LiteLLM variam com o número de segmentos e com quantos passes cada documento exige. Em volume baixo o custo fixo domina e o pipeline parece caro demais para o que faz. Na casa dos 12.600 projetos, a conta se inverte.

LEIA TAMBÉM · Caso realO gargalo nunca foi a IA gerar código, foi decidir o que pedir a elaAntes de escrever código, eu escrevo um documento dizendo o que o sistema faz e como saber se deu certo. Depois viro isso num plano de passos. A IA acelera muito a construção, mas só quando essa definição existe.

Eu trataria a atualização de glossário como parte do QA, não como manutenção

Com 608 clientes, cada um com a própria terminologia, glossário é um ativo que envelhece sozinho. Ninguém acorda com vontade de revisar glossário, e o custo de não revisar só aparece traduzido, dentro de um documento que já foi para o cliente.

O que merece instrumentação cedo é uma pergunta curta: quando o glossário deste cliente mudou pela última vez e quantos jobs rodaram desde então. É uma consulta, não um projeto. E cobre justamente o ponto cego do relatório por job — o relatório mostra o que o pipeline fez, não mostra que a regra seguida por ele está velha.

Velocidade em tradução automatizada é a parte fácil de prometer e a parte fácil de conseguir. O que sustenta 12.600 projetos em produção desde 2025 não é o modelo ser rápido: é o QA rodar duas vezes em todo job e sair relatório de 100% deles, sem exceção por urgência. Sem esse rastro, você não tem um processo 95% mais barato. Tem uma aposta com prazo curto e testemunha nenhuma.